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Jardinando - Jardinagem
Publicado em 29 de junho de 2015

Um pouco de história dos jardins públicos das cidades

Foi a arborização de vias públicas feita por Napoleão em Paris que formou a aparência dos jardins atuais no Brasil – e no mundo.

por Demóstenes Ferreira da Silva Filho

Foi a arborização de vias públicas feita por Napoleão em Paris que formou a aparência dos jardins atuais no Brasil – e no mundo.

Nessa época surgiu o primeiro local ajardinado público no Brasil, com a inauguração do chamado Passeio Público do Rio de Janeiro, em 1783. Também este é o marco do início do ecletismo caracterizado, onde o espaço é pensado dentro de uma visão romântica e suave no ideal de recriar o paraíso perdido e campos bucólicos, incorporando uma concepção pitoresca do mundo. Antes disso, havia apenas jardins privados, pouco elaborados e sem preocupações voltadas apenas para a vida doméstica e familiar (MACEDO, 1999).

O expoente dos jardins da época do Império e início da república foi o Engenheiro Civil e botânico Francês Jean Marie Baptiste Glaziou, que – a serviço do governo – construiu e reformou grandes áreas públicas no Rio de Janeiro, como a Quinta da Boa Vista e o Campo de Santana, além de arborizar a cidade. É possível visualizar o traçado romântico nos projetos elaborados por Glaziou no Brasil, assim como percebe-se o cuidado em usar espécies nativas ou exóticas tropicais introduzidas (TERRA, 1999).

Fotografia do inicio do século vinte mostrando um cenário da Quinta da Boa Vista e a presença de água e árvores e plantas tropicais.

Fotografia do inicio do século vinte mostrando um cenário da Quinta da Boa Vista e a presença de água e árvores e plantas tropicais.

Nos séculos seguintes (XVIIII e XX), ocorrem a consolidação do ato de projetar espaços livres com a incorporação e uso da vegetação tropical, sendo que a praça brasileira surge como um ícone social e passa a ser ajardinada, pavimentada, equipada e tratada com esmero (ROBBA e MACEDO, 2002). Um exemplo desse esmero no projeto urbano é o projeto urbanístico para a cidade de Belo Horizonte (MG). Não só as praças recebem esse tratamento, mas também as avenidas e ruas principais são arborizadas. Nessa questão Aragão (2008) conclui:

 

“A arborização urbana corresponde talvez ao ponto mais alto de valorização da rua, sanadas as necessidades (calçamento, iluminação, água e esgoto), passou-se à valorização do lugar com o plantio de exemplares arbóreos. A introdução do jardim lateral e frontal no lote urbano de uso residencial iria corroborar a valorização da rua, do espaço público urbano. Ao findar o século XIX, a rua brasileira – ou, pelo menos, as de maior importância era calçada, iluminada, percorrida pelos bondes, por vezes arborizada e ladeada por casas com jardim. Uma outra rua, a conformar uma nova paisagem.”

 

É a partir da década de 20 que o movimento artístico-cultural denominado modernismo surge com força no Brasil – principalmente em Recife – com os projetos de praças públicas do artista plástico Roberto Burle Marx e uma transição acontece com o uso marcante de vegetação tropical nativa nesses espaços que, embora ainda seguissem os modelos europeus formais de simetria, centralidade e passeios perimetrais, já esboçavam um rompimento na maneira como as plantas tropicais foram dispostas no espaço (ROBBA e MACEDO, 2002). Sobre Burle Marx, Macedo (1999, pg 16), escreveu:

 

Apesar da forte influência externa a que foi submetida durante o século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX, a arquitetura paisagística brasileira tem, em especial, a partir da obra de Roberto Burle Marx, o mais renomado arquiteto paisagista nacional de todos os tempos, um desenvolvimento expressivo e bastante particular. (…) Esse desenvolvimento corresponde a uma atividade de projeto calcada em um forte sentimento nacionalista, e que nos anos 50 e 60, pela primeira vez, possibilita a existência de espaços livres criados de acordo com a realidade, tanto social como física, do país tropical que é o Brasil. As obras de Burle Marx caracterizam-se por um uso bastante intenso da vegetação tropical, nativa ou não, pelo uso e abuso dos pisos de cores diversas e com desenhos ora geométricos ora bamboleantes e mesmo por programas de uso diferenciados daqueles observados na Europa ou Estados Unidos, pontos de origem das nossas influências paisagísticas.”

 

Sobre as motivações para o projeto da Praça de Casa Forte em 1934, marco do modernismo na paisagem, e outras praças e jardins públicos de Recife, um artigo no Jornal Diário da Tarde, de 1935, relata a reforma dos jardins públicos do Recife:

 

“O jardim em todos os tempos, entre todos os povos, surgiu nos momentos de suas respectivas civilizações. Não houve povo que evoluindo não se congregasse em cidade. Não houve cidade que evoluindo não contivesse jardins. De onde se conclui que o jardim é antes uma necessidade consciente do que simplesmente uma criação acidental de luxo supérfluo na nossa civilização. (…) O jardim moderno não poderia fugir a essa sucessão logica. É assim que ele comporta vários objetivos: higiene, educação e arte.

Sob o ponto de vista higiênico, o jardim moderno representa nas grandes cidades um verdadeiro pulmão coletivo. É nele que o habitante urbano vem respirar um pouco de ar puro, cansado da luta diária nos escritórios acanhados, nas ruas asfaltadas e nos ambientes fabris. É nele que as crianças moradoras de apartamentos empoleirados, casas de quintais reduzidos, ou habitações coletivas, poderão encontrar um meio amplo pra seus brinquedos, recebendo para suas trocas orgânicas, um ar desprovido de contaminação. Nos climas tropicais, para esse fim, torna-se indispensável o plantio de árvores capazes de fornecer grandes sombras”.

 

A valorização da vegetação do Brasil e das florestas como alma brasileira (MARX in FERREIRA el tal. 2013):

 

“O nosso país possui evidentemente uma flora riquíssima e, desse modo, não nos será difícil encontrarmos em qualquer cidade elementos que solucionem essa necessidade. Até então, não tem sido assim o que, entre nós se tem feito nesse sentido. As ruas arborizadas quase que exclusivamente com fícus benjamim, além de resolver mal os problemas de arborização urbana, deixam uma impressão de pobreza de nossa flora, o que não é verdadeiro (…) a variedade imensa de plantas que nos oferecem nossas matas magnificas (…) urge que se comece, desde já, a semear, nos nossos parques e jardins, a alma brasileira”.

 

Por não ter sido arquiteto nem agrônomo, florestal ou botânico, Roberto Burle Marx mostrou que não é preciso ter conhecimento das técnicas de concepção de espaços, de plantio ou mesmo o conhecimento do comportamento de todas as plantas, mas visão.

 

Necessário ter cultura e conhecer a história dos povos e civilizações para ter a visão de empreender um movimento genuíno de mudança na paisagem urbana. Evidentemente que em sua equipe ao longo dos anos muitos botânicos agrônomos e arquitetos forneceram capacidade técnica aos empreendimentos de Roberto Burle Marx além das suas próprias capacidades de artista sensível e intelectual da paisagem e – sobretudo – seu amor pelas plantas ornamentais e árvores.

Conclusão

O valor da vegetação arbórea foi reconhecido por diferentes culturas em diferentes ecossistemas ao longo da história humana, cada sociedade com seus valores próprios, mas essas sociedades tinham em comum o uso das árvores para proteção e melhoria microclimática. Todas as civilizações ao criarem cidades acabam em sua evolução optando pela introdução da vegetação bem manejada e o uso de árvores próximo de suas casas.

 

Referências Bibliográficas

MACEDO, S.S. Quadro do paisagismo no Brasil. São Paulo, 1999. 144 p.

TERRA, C. G. O jardim no Brasil no século XIX: Glaziou revisado. Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2000. 160p.

ROBBA, F.; MACEDO, S.S. PRAÇAS BRASILEIRAS. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. 312 p.

ARAgÃO, S. A casa, o jardim e a rua no Brasil do século XIX. Em tempo de Histórias. V1, n.12, Brasilia: p. 151-162, 2008.

FERREIRA, A. A; ONO, F.P.C; SILVA, J.M. O Recife da década de 1930, Roberto Burle Marx e a gênese dos jardins públicos modernos. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v,5,n.9, p. 247-257. 2013.

 

Demóstenes Ferreira da Silva Filho atua na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Silvicultura Urbana

 

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