Mundo Husqvarna

Coisas da Terra - Produção Rural
Publicado em 11 de novembro de 2016

Ergonomia aplicada em maquinário agrícola e florestal

O avanço da mecanização trouxe progressos mas também exigências quanto ao cuidado com a ergonomia

por Eduardo da Silva Lopes

O avanço da mecanização nas atividades agrícola e florestal propiciou a substituição da tração animal e dos métodos manuais por máquinas modernas e de elevada tecnologia e produtividade, contribuindo ainda para o aumento do conforto, segurança e saúde dos trabalhadores. Atualmente, percebe-se o grande número de máquinas em uso no país, onde muitas apresentam problemas de conforto e segurança, deixando os operadores expostos nos postos de trabalho em níveis de insalubridade acima do permitido pelas normas de segurança.

 

A atividade com máquinas agrícola e florestal engloba a relação entre o homem (operador) e a máquina (trator), formando o sistema homem-máquina, que deve estar em perfeita harmonia, de forma a aumentar a eficiência do sistema de forma a beneficiar o homem. Com isso, surge a avaliação ergonômica de máquinas, que busca estudar variáveis em relação ao acesso, assento, controles, visibilidade e condições do ambiente (clima, ruído, vibração, luminosidade, gases e poeiras) nos postos de trabalho, visando buscar a harmonização na relação homem-máquina. E um dos aspectos desta avaliação consiste na obtenção das medidas destas variáveis, que são padronizadas por normas específicas e que devem estar de acordo com as variáveis antropométricas dos operadores.

 

Em relação ao acesso, é importante atentar-se para o correto posicionamento e as características das vias de acesso ao posto de operação das máquinas, que muitas vezes, são causas de desconforto e de acidentes de trabalho. Assim, deve-se verificar se as dimensões dos degraus, a distância entre degraus, a altura do primeiro degrau em relação ao solo e do último à plataforma do posto de trabalho estão com as devidas medidas e posicionados de forma a não serem atingidos e danificados durante a operação da máquina.

 

O posto de trabalho consiste no espaço formado pelo conjunto de dispositivos de informação e controle, acrescido do espaço gerado pelo deslocamento do operador e seus membros na execução da tarefa. Atualmente, nas máquinas agrícolas e florestais em uso no Brasil é comum encontrarmos problemas que causam extremo desconforto, diminui o rendimento e aumenta a fadiga dos operadores. Por isso, é importante que o operador seja capaz de se sentar com conforto, adotando uma postura correta e evitando torções, abaixamentos e movimentos desconfortáveis durante a execução do trabalho.

 

Dentro do posto de trabalho, o assento é uma variável importante a ser avaliada, cujo objetivo principal é aliviar o peso dos pés, auxiliar no apoio do operador de modo que possa manter uma postura estável durante o trabalho, e assim, relaxando os músculos não exigidos pela tarefa. O assento deve possui uma inclinação ajustável entre a base e o encosto, favorecendo o apoio do tronco, possuir ajustes em relação às medidas de altura, profundidade e largura, apoios para os braços ajustáveis e espaço adequado para as pernas. Por fim, deve-se atentar para o material de revestimento dos assentos, devendo ser usado algum tipo de mola ou espuma específica, visando distribuir a carga do corpo sobre o assento e, assim, reduzir a pressão em pontos isolados.

 

Em relação aos controles e instrumentos existentes no interior do posto de trabalho nas máquinas é necessário considerar as habilidades do ser humano, que depende de suas capacidades psicomotoras e das variáveis antropométricas. Por isso, devem ser levadas em consideração no projeto do posto de trabalho, as diferenças individuais, para que os comandos e instrumentos sejam acionadas por todos os operadores com o maior conforto e segurança. Além disso, os controles devem ser de fácil identificação visual ou por tato, com número de erros e tempo de acionamento reduzidos, além de serem adaptados à parte do corpo que irá acioná-lo, permitindo um contato firme e cômodo. Os controles e instrumentos devem ser localizados de forma que os braços alcancem dentro de seu raio normal de ação, sem a necessidade do operador curvar o dorso ou deslocar o corpo, evitando-se fadiga e maior tempo na execução das tarefas. Já os comandos movimentados pelas pernas podem ser de maior exigência de força, devendo ser observada a posição ideal que permita esta movimentação exata. Por fim, os instrumentos do painel devem ser localizados dentro do raio normal de visão do operador, de modo que as informações atraiam a visão do operador e sejam de fácil entendimento.

 

No trabalho com máquinas agrícola e florestal é importante que o operador tenha uma visualização perfeita de todo o campo de trabalho, não havendo interferência por vidros embaçados, obstruídos por telas estreitas, braços e mangueiras hidráulicos e limpador de para-brisas, permitindo a realização de um trabalho com conforto, seguro e produtivo.

 

No posto de trabalho também deve ser avaliadas as condições do ambiente de trabalho, que têm grande efeito sobre o rendimento do trabalho, principalmente na execução de um trabalho contínuo. E para que haja um menor índice de acidentes, melhor qualidade, maior conforto, segurança e saúde do operador, torna-se necessário que as condições de iluminação, clima, ruído, vibração, gases e poeiras estejam dentro de padrões recomendados.

 

Atualmente, com a mecanização intensiva das atividades agrícola e florestal e a necessidade de aumento da capacidade produtiva, o trabalho noturno passou a ser realizado com maior frequência. No caso do trabalho com máquinas deve-se atentar para o nível de iluminação recomendado, devendo considerar também o contraste entre o local focalizado, suas imediações e a presença de brilho no campo visual. No controle da iluminação deve ser levada em consideração a necessidade de evitar a distração visual, a fadiga e o desconforto da visão. Por isso, a iluminação adequada no campo de trabalho contribuirá para uma maior qualidade e produtividade do trabalho, além da redução dos riscos de acidentes e danos à saúde.

 

As condições climáticas têm grande efeito sobre o trabalho com máquinas agrícola e flrestal. E quando o clima é desfavorável, o operador apresentará indisposição e fadiga, diminuindo a eficiência e aumentando os riscos de acidentes. Assim, o uso de máquinas com cabines fechadas e aclimatizadas contribuirá para o aumento do conforto do operador e a maior eficiência do trabalho.

 

O ruído constitui um grave problema à saúde, podendo causar desconforto e até lesões irreversíveis como surdez do operador. Por isso, o controle do ruído no interior dos postos de trabalho das máquinas deve ser realizado ao nível de projeto, por meio da concepção de cabines fechadas e com isolamento acústico. E quando houver necessidade, recomenda-se o uso de protetores auriculares como medida curativa, de forma a proteger o operador durante o trabalho.

 

No trabalho com máquinas agrícola e florestal, o operador também pode ficar sujeito a elevados níveis de vibração, que são transmitidas diretamente nas partes do corpo que entram em contato direto com a fonte, geralmente as nádegas, as mãos, os braços e os pés. Normalmente, as vibrações são ocasionadas pela própria máquina e/ou pelas condições adversas da área de trabalho, podendo causar enjôos, sensações de desconforto e danos físicos ao operador. Neste aspecto, deve-se atuar na diminuição dos níveis de vibração ao nível de projeto da máquina, com uso de sistemas (amortecedores) que possam minimizar as vibrações das cabines, e quando necessário, ser minimizadas ou eliminadas por meio de lubrificações, manutenções periódicas e uso de isolamentos.

 

Por fim, deve-se ressaltar que muitas máquinas em uso no Brasil apresentam problemas com relação ao posicionamento, altura e distância do escapamento até o operador. Em muitas situações, no simples deslocamento da máquina sem a presença de vento, poderá acarretar no direcionado ao posto de trabalho dos gases de exaustão. A inalação e o contato dos gases de exaustão com os olhos, bem como da própria poeira existente no ambiente de trabalho, poderá provocar o ressecamento das vias respiratórias, o aparecimento de doenças nas vias respiratórias e dificuldade na visão, acarretando irritação, ardência e inflamação dos olhos. Neste aspecto, a proteção e o isolamento das cabines das máquinas é uma medida a ser adotada a nível de projeto, contribuindo para o maior conforto, segurança e saúde do operador.

 

Apesar da modernização dos setores agrícola e florestal, com uso de máquinas de elevada tecnologia e produtividade, ainda existem problemas ergonômicos que muitas vezes são de difícil solução imediata. Por isso, a existência de normas específicas para todas as variáveis ergonômicas; o envolvimento do fabricante, gestores e operadores na concepção de máquinas adequadas do ponto de vista ergonômico; e o gerenciamento dos fatores operacionais e ergonômicos são algumas medidas que poderão contribuir de forma decisiva para melhorar as relações de trabalho e a harmonização da relação homem-máquina.

 

 

* Eduardo da Silva Lopes é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade de Viçosa, mestre e doutor em Ciência Florestal pela mesma universidade. Atualmente é como professor associado da Universidade Estadual do Centro-Oeste e Coordenador do Centro de Formação de Operadores Florestais (CENFOR). Atua na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Colheita e Transporte Florestal.

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